Classes e Funções Gramaticais

Os estudos linguísticos apontam que as diferenças entre classes e funções gramaticais são essenciais à análise descritiva de determinada língua. Em geral, as gramáticas normativas pouco elucidam sobre essa questão, de modo que os conceitos de classe e função, por vezes, parecem se confundir.

Segundo Perini (1996), é importante entender que a definição de classe se relaciona ao potencial funcional semelhante que um conjunto de palavras possui. Por outro lado, a função de um dado grupo será definida com base no contexto específico. Assim, utilizar as classes gramaticais como critério básico da análise descritiva se justifica pelo fato de ser possível prever quais funções essas classes poderão executar.

Para ilustrar o que foi dito, vejamos as funções sintáticas realizadas pelo substantivo cirurgião nas frases abaixo:

  1. O paciente foi operado por um cirurgião
  2. O cirurgião conseguiu curar o paciente.
  3. Foi necessário chamar um cirurgião.

Perceba-se que cirurgião foi utilizado como núcleo de três maneiras distintas, ocupando as funções de agente da passiva (1), sujeito (2) e objeto direto (3). Entretanto, se não houvesse contexto, a única coisa que se poderia dizer é que cirurgião integra a classe dos substantivos, isto é, tem a possibilidade, assim como todos os outros substantivos, de exercer as funções sintáticas de agente da passiva, sujeito, objeto direto etc.

Ainda segundo Perini (1996), cada palavra só poderá pertencer a uma classe – o que não a impede de realizar várias funções. Pode-se contestar, portanto, o que a gramática tradicional chama de mudança de classe. Se uma palavra é substantivo em um contexto e adjetivo em outro, como em “meu amigo vai ligar às oito” e “é melhor se consultar com um médico amigo”, ela, na verdade, pertence a uma nova classe, que não é nem a de substantivo nem a de adjetivo. Temos, nesse caso, três classes distintas.

CRITÉRIOS QUE CARACTERIZAM AS CLASSES

As diferentes classes podem ser caracterizadas mediante três critérios: o semântico, o sintático e o morfológico. O primeiro diz respeito ao significado ou conceito das palavras, isto é, ao vínculo com a realidade social que circunda os falantes. O segundo se refere à aplicação das palavras em enunciados. Temos aqui o critério funcional, que envolve as relações entre os termos na estrutura sintática. O terceiro critério corresponde às características formais das palavras, como as variações de gênero e número.

Embora, tradicionalmente, a classe dos substantivos seja definida quase que exclusivamente pelo aspecto semântico, é importante pontuar que uma análise descritiva eficaz depende da união dos três critérios. Quando apenas dizemos que a classe dos substantivos é formada por palavras que designam ações, estados ou fenômenos, aproximamo-la demais da classe dos verbos, que tem também essas características.

Camara Jr. (1982), além de defender a utilização dos três critérios, aponta que os critérios morfológico e semântico estão diretamente relacionados, já que o vocábulo é uma unidade composta de forma e sentido (dicotomia saussuriana). O autor então, com base no aspecto morfossemântico, distingue a classe dos verbos da dos substantivos:

Verbos: representam processos (critério semântico); flexionam-se em modo, tempo, pessoa e número (critério mórfico).

Substantivos: representam coisas e seres (critério semântico); apresentam gênero e número (critério mórfico).

Para a caracterização dos adjetivos, apenas o critério semântico é insuficiente, uma vez que esta classe existe em decorrência de uma função sintática: a de relacionar-se a um substantivo, singularizando-o. O adjetivo, semanticamente, permite “uma expressão ilimitada de conceitos sem a exigência de uma sobrecarga de memória com rótulos particulares”, como aponta Basílio (2004).

Referências

BASÍLIO, M. Formação e classes de palavras no português do Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.

CAMARA JR., J.M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1982.

PERINI, Mario A. Gramática descritiva do português. São Paulo: Editora Ática, 1996.

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