Na Barca do Tempo – Ruy Espinheira Filho

Ao final de uma crônica de 1945, “A companhia dos amigos”, escreveu Rubem Braga: “Ultimamente têm passado muitos anos.” Li esta frase na juventude e percebi que era algo que eu já vinha percebendo. Sim, na juventude, e já preocupado com o ritmo da barca do tempo. Que veio navegando, navegando – e no próximo dia 12 estará me levando à estação dos meus primeiros 75 anos… É, não há nada como o tempo para passar, como escreveu Vinícius no genial “O sexto dia da criação”.

Na verdade, eu esperava morrer cedo, na idade de Álvares de Azevedo, ou de Castro Alves. Eu era também um poeta romântico – a quem poupou a morte, como poupou Manuel Bandeira, tuberculoso, desenganado por volta dos 18 anos e que só morreu aos 82 (não de tuberculose, mas devido a um problema gástrico). É, são assim a vida e a morte, cheias de truques, dribles, lambanças, labirintos – até aquilo em que quase todos nós acreditamos e que se chama Destino.

E aqui estou eu, à beira dos 75, e nem me reconheço. Sou mesmo um velho? Na verdade, há muito descobri que jamais cheguei a ser um homem maduro, ou seja, seguro de si, administrando-se com sabedoria, vendo o mundo e a vida com serenidade. Não, sempre me acho meio perdido, entre infância e adolescência. Já veteraníssimo em literatura, por exemplo, a cada livro me sinto estreante. E sou mesmo, sempre, estreante, porque a arte é uma busca sem fim…

Há quem entra em crise aos vinte, aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta, aos… Mas não eu, sou de família que festeja os aniversários. O que farei agora – não no dia 12, mas no dia 15, sexta-feira, devido a compromissos. E festejarei como um estreante – com lançamento de novo livro, Babilônia & outros poemas; e talvez Nova antologia poética, se esta chegar a tempo. No restaurante do Edinho, antiga Ceasinha do Rio Vermelho, a partir das 17 horas. Onde e quando aguardarei amigos de vida e literatura para que possamos falar de poesia e dos projetos que certamente todos nós temos para os nossos próximos 75 anos…

Ruy Espinheira Filho

Artigo publicado no jornal A Tarde.

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