O Emplasto / Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Capítulo II / O Emplasto

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão.

Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me argúam esse defeito; fio, porém, esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim, a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

Capítulo extraído de Memórias Póstumas de Brás Cubas, presente na Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.

Machado de Assis (1839 – 1908) é um dos mais importantes escritores brasileiros. Com uma obra riquíssima, que abrange romances, contos, crônicas, peças teatrais, além de uma produção poética sólida, Machado teve enorme influência na literatura brasileira a partir da segunda metade do século XIX.

Embora os primeiros romances de Machado de Assis estejam associados ao Romantismo, casos de Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), o escritor carioca foi aclamado, depois, como um expoente do Realismo. Pelo estilo de narração excêntrico e pela análise crítica e minuciosa, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) marcou o início do Realismo no Brasil.

A prosa realista machadiana é extremamente inovadora: a ironia e o pessimismo, que destilam de personagens fascinantes, tornaram-se marcas consagradas do autor.  A chamada “trilogia realista” envolve Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

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