Resumo da Obra “As Veias Abertas da América Latina”

Obra: GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2015.

INTRODUÇÃO (“120 MILHÕES NO CENTRO DA TORMENTA”)

Galeano nos convida a questionar a suposta alegação de que a miséria na América Latina decorre do crescimento/tamanho de sua população quando se sabe que muitos países latino-americanos têm baixa densidade demográfica e muita terra para a produção. Na verdade, a campanha contra a fecundidade, encabeçada pelos Estados Unidos, surge como um meio de justificar a desigualdade social e os absurdos do sistema capitalista. Nega-se o direito de nascimento dos latino-americanos, porque é mais fácil combater esta ideia do que milhares de jovens engajados.  

No período em que o livro foi escrito, década de 70, houve, por exemplo, forte campanha de estímulo ao uso de métodos contraceptivos na população da Amazônia, por iniciativa dos Estados Unidos, principalmente porque o povoamento da região contraria seus interesses econômicos.

– PRIMEIRA PARTE (“A POBREZA DO HOMEM COMO RESULTADO DA RIQUEZA DA TERRA”)

Galeano apresenta nesta parte os horrores da colonização da América Latina pelos europeus. O subdesenvolvimento dos países da América Latina não é uma casualidade; é produto do saque desenfreado europeu em diversos momentos históricos, variando apenas a riqueza furtada (ouro, prata, açúcar, café, borracha, cacau, cobre, ferro etc), sempre em razão de tais produtos serem cobiçados na Europa.

O saque, interno e externo, foi o meio mais importante de acumulação primitiva de capital, fundamental para a Revolução Industrial na Europa. Em contrapartida, a concentração internacional impediu, nas regiões saqueadas, o salto para a acumulação de capital. Reside neste ponto a dificuldade da América Latina de se industrializar até os dias de hoje. 

Regiões que nutriram a riqueza dos mais ricos no passado são hoje as mais pobres do mundo. É o caso de Potosí, na Bolívia, de cujas minas foram extraídos 16 milhões de quilos de prata com destino ao mercado europeu. A exploração na América segue uma lógica cabal: locais que abrigaram o desenvolvimento de metrópoles coloniais – depois do declínio dos produtos no mercado internacional – se tornaram os mais pobres, devido às consequências trágicas da exploração.

Juntam-se às bases do sistema de exploração agroexportador a utilização de mão de obra escrava (ou quase escrava) em larga escala, indígena e africana, e a chacina de grande parte das populações nativas. Estima-se que os índios da América, no início da colonização, eram 70 milhões, ou talvez mais; um século e meio depois, reduziram-se a 3,5 milhões.

Assim, a Europa – e mais tarde os Estados Unidos – não só furtaram (e furtam) a maior parte das riquezas da América Latina, como também o fizeram com base na mão de obra mais barata possível. O negócio da colonização gerou lucros astronômicos, sem precedentes na história até então.

Como consequência da colonização, os enormes latifúndios, com pouquíssimos donos, estrangulam o desenvolvimento e é um dos principais fatores da marginalização e da pobreza das massas latino-americanas. A pouca diversidade de alimentos e a infertilidade dos solos, pela ação devastadora das monoculturas, são grandes responsáveis pela fome que assola a região. Todas as tentativas de Reforma Agrária enfrentam dura repressão, amparada pela Europa e pelos Estados Unidos.

Em se tratando dos diferentes resultados da colonização de exploração, que ocorreu na América Latina, e da colonização de povoamento, nos Estados Unidos, Galeano alega que a região das 13 colônias era semelhante à Inglaterra e não possuía diversidade de produtos que interessassem ao mercado europeu. Por essa razão, o desenvolvimento tomou outro rumo. Em linhas gerais, as regiões com riqueza mineral e maior potencial agrícola foram as mais largamente exploradas.

SEGUNDA PARTE (“O DESENVOLVIMENTO É UMA VIAGEM COM MAIS NÁUFRAGOS DO QUE NAVEGANTES”)

As independências na América Latina já nasceram dependentes da Inglaterra, que se afirmou na Revolução Industrial como maior produtora. Abundavam na América Latina os produtos industrializados ingleses, que chegavam facilmente pelo livre-comércio depois de derrubadas as barreiras alfandegárias.

A abertura aos produtos ingleses prejudicou a indústria têxtil e as manufaturas locais, provocando desemprego em massa e enfraquecendo os países emergentes. Quase tudo era importado da Inglaterra, com direito a patins de gelo no Rio de Janeiro e cobertores de lã em Salvador.

Uma exceção no cenário de dominação inglesa no século XIX era o Paraguai, que estava livre de produtos ingleses, tinha economia estável e protegida, além de indicadores sociais impressionantes. Essa é uma das razões para a trágica guerra – declarada pela Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai). Galeano alerta que houve enorme influência inglesa no conflito. Derrotado, o Paraguai se tornou um dos países mais pobres da América Latina e perdeu 5/6 de sua população durante as batalhas. Diferente do que se pode imaginar, os vencedores também perderam, acumulando grandes dívidas e hipotecando seu futuro aos bancos ingleses.

É importante destacar que o Brasil exerceu, após a vitória na guerra, um subimperialismo sobre o Paraguai, roubando uma parte de seu território e usurpando suas riquezas. Quem usufruiu realmente dos ganhos dessa exploração, entretanto, foi a mesma Inglaterra, a cuja economia o Brasil se encontrava subordinado.

No decorrer da segunda parte, nos é apresentada, com detalhes, a ascensão dos Estados Unidos como potência mundial. A exploração dos países da América Latina continuou a ocorrer de maneira assombrosa, agora pelos Estados Unidos, que dita as regras, impõe medidas desleais às economias emergentes e desarticula as bases políticas e econômicas de muitos governos latino-americanos.  

Os países da América Latina estão eternamente endividados e deixados à ruína, reféns de táticas capitalistas elaboradíssimas, que envolvem altas e baixas repentinas de preço, especulação e ataques às empresas locais. Tudo isso é possível por meio de uma rede de corporações multinacionais dominantes, bancos e mecanismos de controle como o FMI.

O livro termina com a esperança de renascimento/emancipação da América Latina por meio da integração entre seus países e da criação de uma comunidade econômica verdadeiramente latino-americana. Adverte-nos Galeano que “para que a América Latina possa nascer de novo, será preciso derrubar seus donos, país por país”. E desfecha dizendo que “há quem acredite que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre as consciências dos homens”.

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