Introdução – Fotografia e Memória – Michelon

Eugène Pelletan (1855-59), Nadar

Se, em um tempo futuro, muito distante, só tivessem sobrado de nós vestígios e alguns deles fossem encontrados, e, entre esses, fotografias, pensemos que um fato seria possível: por meio delas, para os que as encontrariam, poderia se operar uma revelação. As fotografias diriam sobre quem fomos e como vivemos. Caso os habitantes do futuro encontrassem, por acaso, soterrado um arquivo de fotografias de guerra, quem sabe deduziriam a ignóbil condição daquela humanidade perdida e suspirariam de alívio pela nossa extinção. Se, ao contrário, o que encontrassem fossem álbuns de uma prosaica família, apreciariam crianças fotografadas, ao longo dos anos, sempre tão divertidas, cenas de trivial alegria.

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Gênero Gramatical: Tradição Normativa e Linguística Moderna

Nessa postagem, analisaremos as questões voltadas à realização do gênero considerando a abordagem tradicional e os estudos linguísticos.

Os gêneros existentes na Língua Portuguesa (masculino e feminino) existem por uma imposição gramatical e não apenas para a distinção de sexo. Todos os substantivos possuem gênero, até mesmo quando representam seres assexuados ou conceitos abstratos.

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Classes e Funções Gramaticais

Os estudos linguísticos apontam que as diferenças entre classes e funções gramaticais são essenciais à análise descritiva de determinada língua. Em geral, as gramáticas normativas pouco elucidam sobre essa questão, de modo que os conceitos de classe e função, por vezes, parecem se confundir.

Segundo Perini (1996), é importante entender que a definição de classe se relaciona ao potencial funcional semelhante que um conjunto de palavras possui. Por outro lado, a função de um dado grupo será definida com base no contexto específico. Assim, utilizar as classes gramaticais como critério básico da análise descritiva se justifica pelo fato de ser possível prever quais funções essas classes poderão executar.

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A Linguagem Poética

A linguagem poética nos encanta porque nos apresenta um mundo novo. Quando lemos um poema e somos verdadeiramente tocados por ele, ocorre algum tipo de encontro – que é surpresa e libertação. Instante isolado no tempo: na leitura do poema, um mistério é proposto e resolvido; uma ideia acende e apaga; a palavra se transforma.

The Concert (1957), Marc Chagall

Historicamente, sempre foi difícil definir quais elementos ou recursos tornam um texto poético. Mais difícil ainda é pontuar o que dá qualidade a um texto poético qualquer. Nessa breve postagem, falarei sobre certas sutilezas da poesia nos diferentes níveis da língua. Considerarei aqui que o poema é um texto diferente dos demais, já que nele tudo parece possível: uma palavra assume o sentido de outra, um termo passa a exercer nova função sintática, contradições e absurdos se apresentam… Tudo, enfim, conflui para que a lógica da língua seja subvertida.

Levaremos em conta também que o que o poema diz, em linhas gerais, não importa. Importa como o poema diz, já que ele costuma dizer, de fato, o que não é dito. Citando letra de Gilberto Gil, “uma meta existe para ser um alvo, mas, quando o poeta diz ‘meta’, pode estar querendo dizer o inatingível”.

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