And Death Shall Have no Dominion – Dylan Thomas (Tradução)

E a morte não terá nenhum domínio

Tradução: Murilo Rafael

E a morte não terá nenhum domínio
Os homens são iguais – mortos, despidos,
ao caminho do vento e do luar.
Com seus ossos tão alvos esquecidos.
Estrelas surgirão de mãos e pés
Onde há loucura então há lucidez.
Afundar e emergir mais uma vez.
O amor há de reinar sobre o extermínio.
E a morte não terá nenhum domínio.

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Carta a uma Senhorita em Paris – Julio Cortázar

Andrée. Eu não queria viver em seu apartamento da Calle Suipacha. Não tanto pelos coelhinhos, mas porque me desagrada entrar em uma ordem fechada, construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa preservam a música da lavanda, o adejar de um cisne, o jogo de violino e viola no quarteto de Rará. Para mim é duro entrar em um ambiente onde alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês), ali os almofadões verdes, neste exato lugar da mesinha, o cinzeiro de cristal que se parece com uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um crescer de plantas, uma fotografia do amigo morto, um ritual de bandejas com chá e pinças de açúcar… Ah, querida Andrée, que difícil opor-se, embora aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à minuciosa ordem que uma mulher instaura em sua agradável residência. Como é condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa, pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar. Mexer nessa tacinha equivale a pôr um horrível e inesperado vermelho em meio a uma modulação de Ozenfant, como se de repente as cordas de todos os contrabaixos rebentassem ao mesmo tempo, com o mesmo espantoso chicotaço, no instante mais suave de uma sinfonia de Mozart. Mexer nessa tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de um objeto com outro, de cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua distante moradora. E eu não posso aproximar os dedos de um livro, ajustar de leve o cone de luz de um lampião, abrir a tampa da caixa de música, sem que um sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de pardais.

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Um Senhor Muito Velho com umas Asas Enormes – Gabriel García Márquez

No terceiro dia de chuva tinham matado tantos caranguejos dentro de casa que Pelayo teve de atravessar o seu pátio inundado para atirá‑los ao mar, pois o bebê recém‑nascido tinha passado a noite com febre e pensava‑se que era por causa da pestilência. O mundo estava triste desde terça‑feira. O céu e o mar eram uma única e mesma coisa de cinza e as areias da praia, que em março resplandeciam como poeira de luz, tinham‑se transformado numa papa de lodo e mariscos podres. A luz era tão fraca ao meio‑dia que, quando Pelayo regressava à casa depois de ter deitado fora os caranguejos, teve dificuldade em ver o que era que se movia e gemia no fundo do pátio. Teve de aproximar‑se muito, para descobrir que era um homem velho, que estava caído de borco no lodaçal e que, apesar dos seus grandes esforços, não podia levantar‑se, porque lho impediam as suas enormes asas.

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For the Year of the Insane – Anne Sexton (Tradução)

Para o ano dos insanos
uma oração

Tradução de Ana Santos 

Ó Maria, frágil mãe,
ouve-me, ouve-me agora,
embora eu não saiba tuas palavras.
O rosário negro com seu Cristo de prata
jaz profano em minha mão,
pois sou a que não crê.
Cada conta é redonda e firme entre meus dedos,
um pequeno anjo negro.
Ó Maria, concede-me essa graça,
essa travessia,
embora eu seja feia,
submersa em meu passado
e minha loucura.
Embora haja cadeiras,
deito-me no chão.
Só minhas mãos estão vivas
e tocam contas.
Palavra por palavra, tropeço.
Novata, sinto tua boca tocar a minha.

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