Tipos de Variação Linguística

– Variação Diacrônica

A variação diacrônica corresponde à mudança linguística histórica, aos diferentes estágios pelos quais qualquer língua passa no decorrer do tempo. No caso do Português Brasileiro, percebemos, analisando textos de outras épocas, o quanto o português contemporâneo é distinto do português arcaico. Determinadas expressões e palavras deixaram de ser usadas dando lugar a novas formas. A variação histórica de uma língua ocorre de maneira lenta e gradual e muitas vezes há uma etapa de transição até que se consagre a nova forma linguística.

Antigamente, era comum o uso da mesóclise – colocação do pronome oblíquo no meio de algumas formas verbais –, como “dir-se-ia”, “dar-lhe-ei” ou “far-se-á”. Hoje, podemos dizer que essas formas praticamente caíram em desuso, existindo apenas em raros textos escritos (com alto grau de formalidade) e na tradição literária. Na oralidade, construções como essas atualmente são raríssimas. O mesmo ocorre com a palavra “boticário”, que outrora era utilizada para denominar o “farmacêutico”.

Em relação à variação diacrônica, vale a pena conferir um fragmento do texto “Antigamente”, de Drummond:

Antigamente
Carlos Drummond de Andrade

“Antigamente as moças chamavam-se “mademoiselles” e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhe pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia.

As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca, e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entremente, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava a manta e azulava, dando às de Vila-Diogo….”

– Variação Diatópica

Esse tipo de variação corresponde às diferenças geográficas ou regionais existentes entre os falantes de uma mesma língua. Há, no Brasil, diferenças marcantes no uso da língua entre os estados e até mesmo entre as capitais e as cidades do interior. São falares que expressam peculiaridades e compõem a nossa diversidade cultural. Por esse prisma, é interessante conceituar dialeto como a maneira característica com que uma comunidade de falantes utiliza a língua. Por extensão, poderíamos dizer que o português brasileiro é o resultado da união de vários dialetos. Obviamente, é também necessário considerar o momento histórico e as características socioculturais quando analisamos as realizações linguísticas de uma comunidade.

Como exemplo de variações geográficas, podemos citar o uso do artigo definido antes do nome de pessoas, comum nos estados do sul/sudeste em frases como “A Flávia é legal” ou “O Carlos está elegante hoje”. Por outro lado, na Bahia, não se costuma usar o artigo e diz-se apenas “Flávia é legal” e “Carlos está elegante hoje”.

– Variação Diastrática

A variação diastrática diz respeito às diferenças linguísticas decorrentes dos aspectos sociais. Relaciona-se, portanto, a fatores genuinamente sociais como “gênero”, “idade”, “identidade étnica”, “classe social”, “grau de escolarização”, “profissão” etc. Uma pessoa mais velha, por exemplo, não utiliza a língua do mesmo jeito que uma criança ou um jovem.

No Brasil, por haver domínio de uma classe social sobre outra, geram-se comumente estigmas em relação aos grupos à margem da sociedade. Na verdade, por razões que não são linguísticas, determinada variante é tida como superior. Isso acaba por designar o chamado “preconceito linguístico”, tópico que abordaremos no post seguinte.

– Variação Diafásica

A variação diafásica é também comumente chamada de “situacional” e diz respeito às diferentes situações em que o falante se encontra ao iniciar um ato comunicativo. Aqui é importante destacar que essa variação liga-se intimamente ao grau de formalidade. Não agimos da mesma forma quando nos submetemos, por exemplo, a uma entrevista de emprego ou a uma conversa na mesa do jantar. Serão diferentes as nossas realizações linguísticas: no primeiro caso, teremos maior monitoramento e utilizaremos a língua de maneira mais formal, uma vez que estamos sendo “julgados”. No segundo, a conversa terá um tom mais descontraído em decorrência da familiaridade que os interlocutores possuem entre si.

Ambas as situações deixam claro que o contexto define os usos que faremos da língua. Todo falante nativo domina as possibilidades de seu idioma e naturalmente possui uma espécie de “inteligência linguística”, que lhe permite a adequação a cada evento específico.

– Variação Estilística

Além dos tipos de variação apresentados, existe ainda a chamada variação estilística, que corresponde ao modo como cada pessoa – analisada individualmente – faz uso da língua. Vincula-se às idiossincrasias linguísticas que compõem o estilo de cada um de nós quando falamos ou escrevemos. É, enfim, a nossa capacidade de “improvisação” dentro do sistema linguístico social.

Vale dizer por fim que todos os tipos de variação ocorrem em conjunto – havendo constante interligação entre eles. Esses tipos se sobressaem em maior grau na fala, uma vez que esse nível de linguagem é mais espontâneo e natural. Em essência, o homem é um ser que fala, não necessariamente um ser que escreve.

por Murilo Rafael

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