Trecho de A Cidade e as Serras – Eça de Queirós

Tinha trinta anos. Nunca se embaraçara nos tormentos duma paixão. Marcava, com rígida regularidade, todas as suas despesas num Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima (e mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos à missa de S. Felipe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem abrigo – ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de patinagem. E preparava também os de Caridade – porque era boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando fossem patrocinados pelas Duquesas do seu “rancho”. Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.

Pois respirando esta macia e fina flor passamos nós as tardes desse Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvários, os mais bem tapetados, que ele subia a escadaria de Madame de Oriol, tão suave e orlada de tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre Príncipe puxava os pêlos do bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, enquanto os melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mão da sua doce amiga, para despedir, havia sempre alacridade e alívio.

Trecho extraído da obra As cidades e as serras. São Paulo: Ática, 2011.

Compartilhe conhecimento...