A Linguagem Poética

A linguagem poética nos encanta porque nos apresenta um mundo novo. Quando lemos um poema e somos verdadeiramente tocados por ele, ocorre algum tipo de encontro – que é surpresa e libertação. Instante isolado no tempo: na leitura do poema, um mistério é proposto e resolvido; uma ideia acende e apaga; a palavra se transforma.

The Concert (1957), Marc Chagall

Historicamente, sempre foi difícil definir quais elementos ou recursos tornam um texto poético. Mais difícil ainda é pontuar o que dá qualidade a um texto poético qualquer. Nessa breve postagem, falarei sobre certas sutilezas da poesia nos diferentes níveis da língua. Considerarei aqui que o poema é um texto diferente dos demais, já que nele tudo parece possível: uma palavra assume o sentido de outra, um termo passa a exercer nova função sintática, contradições e absurdos se apresentam… Tudo, enfim, conflui para que a lógica da língua seja subvertida.

Levaremos em conta também que o que o poema diz, em linhas gerais, não importa. Importa como o poema diz, já que ele costuma dizer, de fato, o que não é dito. Citando letra de Gilberto Gil, “uma meta existe para ser um alvo, mas, quando o poeta diz ‘meta’, pode estar querendo dizer o inatingível”.

Poemeto

A princípio, pensei em analisar as características de três ou quatro poemas. Dadas as inúmeras possibilidades da poesia, entretanto, considerei suficiente apenas um poema, ou melhor, um trecho de Poemeto, do poeta baiano Antonio Brasileiro.

“Parte de mim é bela.
Parte é aquela

vontade de fugir.”

Matéria e Luz

A beleza dos versos acima parece residir na sua exatidão e, ao mesmo tempo, na sua estranheza. O que chama nossa atenção, inicialmente, é a criação de um forte par opositivo. A dualidade do ser (de um lado, a beleza; do outro, a vontade de fugir) é realçada por duas razões principais: a repetição sucessiva de “parte”, engenhosamente apresentada sem artigo, criando dois conjuntos diversos no todo; e o paralelismo das duas orações: ambas têm estrutura sintática semelhante (sujeito + verbo de ligação + predicativo do sujeito).

Assim, no plano do sentido, “aquela vontade de fugir” passa a fazer menção ao que não é belo. E, de igual maneira, a beleza passa a estar associada à permanência, à matéria, à lucidez.

Som e Sentido

The Fiddler (1912), Marc Chagall

A utilização de rimas é, tradicionalmente, um dos mais importantes recursos poéticos, não só pelo efeito curioso da repetição sonora. As rimas promovem uma ruptura no processo de seleção de palavras, que passa a priorizar o som. As implicações podem ser interessantes: no caso em questão, o pronome “aquela” foi atraído por “bela”, criando novos sentidos dentro do poema.

Como cada verso é um elemento independente, “aquela”, desfechando o segundo, foi outra forma de construir o paralelismo no nível sintático: o termo finaliza uma sequência de repetição iniciada pelo substantivo (“parte”) e pelo verbo (“é”). Isso justifica também o espaçamento dos dois primeiros versos em relação ao terceiro. No nível semântico, ocorre acréscimo considerável: a palavra “aquela” associada a “vontade de fugir” traz a ideia de familiaridade, como se a vontade de fugir fosse uma velha conhecida.

Som e Silêncio

Assim como as rimas, a métrica e o ritmo são componentes fundamentais da poesia. A delimitação de sílabas poéticas contribui para que todo verso funcione como pequenas células de significação. Por outro lado, o movimento – provocado pela oscilação de sílabas átonas e tônicas – pode despertar um sem-número de sensações no leitor. Os versos são regidos por uma espécie de percussão cujo modo de funcionamento se delineia pelo esforço expressivo. No trecho de Poemeto, os três versos possuem, respectivamente, seis, quatro e seis sílabas poéticas. A sequência suscita um modelo de ascensão, queda, ascensão. O fato de o segundo verso (menor, rápido e preciso) destoar dos demais reforça a oposição sugerida.

Outra questão relevante, que não poderia deixar de ser citada, é a zeugma da locução “de mim”, que aparece apenas na primeira oração, mas está subentendida na segunda. O curioso é constatar que, se o segundo verso fosse “parte de mim é aquela”, teríamos um todo com mesmo número de sílabas poéticas. A omissão não é casual, mas necessária à elaboração dos efeitos citados aqui. No nível semântico, a omissão de “de mim” confere a “aquela vontade de fugir” um vínculo maior com questões universais, isto é, com as coisas do espírito.

Palavra Original

Uma das principais definições de Saussure – pai da linguística moderna – propõe que o signo linguístico é arbitrário, isto é, não existe relação lógica entre a grafia (ou o som) de uma palavra e o seu respectivo significado. A forma de representar um objeto é definida por convenção, entre os falantes de uma comunidade. É por essa razão que as diferentes línguas têm formas diferentes para o mesmo conceito.

Associando essas ideias à poesia, é possível refletir sobre uma questão interessante. Ora, se os signos são convencionais e se uma coisa é uma coisa apenas por não ser outra coisa, as palavras, em geral, podem abarcar qualquer conceito. As infinitas possibilidades fazem parte de sua natureza essencial: o nada que tem potencial para ser tudo. Talvez a linguagem poética seja o meio mais eficiente de evidenciar isso. Sim, talvez a humanidade, desde os tempos mais longínquos, tenha se dedicado à poesia para encontrar a palavra original – leve e branda como uma nuvem no primeiro céu.

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