A Morte Não Terá Domínio – Luis Fernando Veríssimo

Li que Samuel Beckett dizia que quem morria passava para outro tempo. Não queria dizer outro mundo, com um presumível outro clima. Referia-se ao tempo do verbo. Entre todas as mudanças provocadas pela morte havia essa: o morto passava irremediavelmente ao pretérito.

Era bom pensar assim. A morte acontecia no mundo antisséptico das palavras e das regras gramaticais, nada a ver com a decomposição da carne. O “é” transformava-se em “era” e “foi”, e pronto. A migração do morto, em vez de ser da vida para o nada, era só entre categorias verbais.

A vida vista como uma narrativa literária nos protege do horror incompreensível da morte. Podemos nos imaginar como protagonistas de uma trama, que, mesmo quando não é clara, indica alguma coerência, em algum lugar.

O próprio Beckett só escreveu sobre isso: a busca de uma trama, qualquer trama, por trás do aparente absurdo da experiência humana. E um enredo, ou um sentido que faça sentido, só pode ser buscado na narrativa literária, no encadear de palavras que leva a uma revelação, mesmo que esta não explique nada, muito menos a morte.

E se falar, falar, falar sem cessar, como fazem os personagens do Beckett na esperança de que aflore algum sentido, não der resultado, pelo menos está-se fazendo barulho e mantendo a morte afastada.

A literatura tem essa função, a de uma fogueira no meio da escuridão da qual a morte nos espreita. Ou de uma matraca contra o silêncio final. Vale tudo, mesmo a garrulice incoerente de um personagem do Beckett, contra a escuridão e o silêncio.

Num poema que fez sobre seu pai moribundo, Dylan Thomas o insta a reagir ferozmente contra o esvaecer da luz — “Rage, rage against the dying of the light” — e a não se entregar à morte sem uma briga.

Não sei se o Beckett encontrou o consolo que procurava pelos seus mortos na ideia de que tinham apenas mudado de tempo de verbo, mas imagino que, como Dylan Thomas na sua poesia inconformada, tenha recorrido à literatura como um meio de negar à morte o seu triunfo. Ninguém morre. Há apenas uma revisão na narrativa da sua vida para atualizar o tempo dos verbos.

Outra vez Dylan Thomas: And death shall have no dominion, e a morte não terá domínio.

Diz-se que quem morreu “já era”, o que é o mesmo que dizia o Beckett com mais sensibilidade. Mas Beckett queria dizer mais. Os personagens de narrativas literárias mudam do tempo presente para o tempo passado, mas continuam no mundo, mesmo que no mundo restrito dos livros e das estantes. Salvo, talvez, os cupins e as traças, nada ameaça a sua perenidade. “São” eternamente.

Crônica de Luis Fernando Veríssimo extraída do Blog do Noblat.

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