A Verdade Inventada em Mutum

Em Campo Geral, novela publicada em 1956, João Guimarães Rosa retrata com lirismo e sensibilidade únicos o universo infantil de Miguilim, menino que vive no Mutum, local isolado no sertão de Minas Gerais. O autor concentra a narrativa no olhar atônito de Miguilim sobre o que se passa à sua volta e em suas tentativas de compreender os absurdos da vida.

Mutum (2007), primeiro filme de ficção da documentarista Sandra Kogut, procura recriar visualmente a história de Miguilim, mantendo certos aspectos essenciais da novela. A tarefa é complicada. Sandra, no entanto, acerta ao afirmar que o filme é uma conversa com o livro de Guimarães Rosa, e não uma tentativa de adaptação fiel (o que, em última análise, seria impossível).

Em Mutum, Miguilim vira Thiago, e Dito, seu irmão, vira Felipe, nomes reais dos meninos que protagonizam o filme. Ambos, como as demais crianças e parte do elenco adulto, são habitantes genuínos do sertão mineiro e nunca haviam atuado.

Para que soassem espontâneas, as falas do roteiro eram lidas para os atores, que então as repetiam a seu modo. Tal recurso, aliado à transposição da trama dos anos cinquenta para o século XXI, ao aspecto autêntico da cenografia e do figurino e, é claro, ao fato de grande parte do elenco estar em um ambiente que lhe é muito familiar, resulta em uma naturalidade incrível. É como se o espectador estivesse observando pessoas “reais” em um documentário ou reportagem, e não personagens fictícias. De fato, através das personagens rosianas, os atores talvez estivessem encenando suas próprias vidas.

O minimalismo em Mutum parece ser, paradoxalmente, a forma encontrada pela diretora de traduzir o universo interior de Miguilim/Thiago – tão dependente, na forma escrita, da exuberância das palavras de Guimarães Rosa.

Não há música ao longo do filme, exceto pela canção melancólica entoada por um sertanejo durante os créditos finais. Os sons ambientes (grilos, pássaros, vento, chuva), no entanto, são valorizados ao extremo, fazendo do sertão uma presença terrivelmente viva. Da mesma forma, os pequenos detalhes (uma formiga, um conjunto de teias de aranha) se agigantam.

Também o silêncio é frequente em Mutum. Ele reina absoluto quando o pai está por perto e só é quebrado pelo riso estridente das crianças em escassos momentos de alegria.

Os olhares que a avó e a mãe lançam ao horizonte, vislumbrando talvez um outro lugar qualquer que não seja o Mutum, uma outra vida qualquer que não seja a sua, comovem. E comove mais ainda o olhar que trocam a mãe e Felipe pouco antes de ele morrer.

Os eventos que cercam a morte de Felipe, a propósito, estão entre os mais marcantes do filme. A veracidade do pranto do menino impressiona. Ele parece realmente sentir dor. Do mesmo modo, o pequeno ator consegue transmitir a coragem de Felipe diante da morte precoce, ele que era uma criança precoce, ciente do sofrimento e das limitações de sua gente.

A impotência de Thiago diante da agressividade do pai, da apatia da mãe, da pobreza e da morte nos faz pensar em nossas próprias fragilidades, tanto as que experimentamos na infância como as que experimentamos ao longo de toda a vida. Há um ciclo inevitável que deverá transformar o menino sensível em alguém como seu pai, um sujeito rude, homem da roça, afundado em sua própria miséria, incapaz de demonstrar afeto. É por dois acasos do destino (o desaparecimento do pai e a passagem de um médico pelo Mutum) que o ciclo será interrompido.

Na cena em que Thiago está deitado ao pé da porta, com o corpinho encolhido, ele parece esperar não apenas que a chuva passe, mas que passe o perigo de viver. Ele pergunta a Felipe, à luz de um lampião, antes de dormir: “Se o pai ficasse com raiva da gente, será que ele ia mandar a gente embora, no escuro, debaixo da chuva, a gente sem saber pra onde ir?”.

Uma sequência emblemática de Mutum é aquela em que o pai destrói algumas das gaiolas em que Thiago cria pássaros. Revoltado, o menino quebra as gaiolas restantes e alguns de seus brinquedos. Seria o prenúncio do fim de sua inocência, não fossem os dois acasos referidos.

“Então pra que acontece tudo, mãe?”, quer saber o menino, prestes a ir embora, descoberto míope pelo médico que o levaria. E ninguém tem a resposta. Fica na memória a imagem de um comovente Miguilim/Thiago de óculos, cheio de esperança e saudade antecipada, vendo a família e o Mutum pela primeira vez.

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