Biografia de Augusto dos Anjos e Primeiros Poemas

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho de Pau D’Arco, na Paraíba, em 20 de abril de 1884. Dono de uma das obras mais marcantes e originais da Língua Portuguesa, sua poesia vem conquistando ao longo dos tempos o apreço de inúmeros leitores. Hoje, Augusto dos Anjos já pode ser considerado um “imortal” – afirmação comprovada pelas diversas reedições de “Eu”, único livro do poeta, capaz de, sozinho, pô-lo entre os maiores escritores de nossa literatura.

Terceiro filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Augusto passou a maior parte de sua vida no Engenho de Pau D’Arco, onde nasceu.  Cursou o ensino primário e secundário com o próprio pai e, em 1900, então com dezesseis anos, mudou-se para a capital e ingressou no Liceu Paraibano.

No fragmento abaixo, do Elogio de Augusto dos Anjos, Órris Soares descreve o poeta:

Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas vistas transmudavam-se rapidamente, crescendo, interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau, sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. Na omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro… Essa fisionomia, por onde erravam tons de catástrofe, traía-lhe a psique. Realmente lhe era a alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam as violetas da mágoa…

Ao que tudo indica, o poeta sempre foi afeito à solidão, à tristeza e ao estudo. Em rara entrevista, concedida ao Dr. Licínio Santos, em 1912, ao ser indagado sobre a infância, revela que “desde a mais tenra idade se entregou exclusivamente aos estudos, relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento, numa atmosfera de rigorosíssima moralidade, da chamada vida física”. Nesse aspecto, seu pai teve grande importância, uma vez que possuía uma biblioteca vasta, por meio da qual Augusto teve acesso a obras sobre Ciências Naturais e aos clássicos da Literatura Ocidental.

Os primeiros “rabiscos poéticos” surgem antes dos nove anos de idade, justamente na época em que era educado pelo pai: geralmente as aulas se davam à sombra de um pé de tamarindo do Engenho, árvore citada em alguns poemas de “Eu”. Considera-se, todavia, que Saudade seja seu primeiro poema oficial:

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noite quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

Já se percebem neste poema, escrito em 1900, algumas características que iriam marcar a obra de Augusto. É importante notar também a suavidade simbolista e a beleza sonora que embalam o soneto, sobretudo no segundo quarteto.

No entanto, o poema que parece ser o melhor exemplo do simbolismo augustiano é o seguinte:

N’augusta solidão dos cemitérios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.

São minhas crenças divinais, ardentes
Alvos fantasmas pelos merencórios
Túmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmóreos.

Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na laje fria dos meus sonhos pulcros,

Desliza então a lúgubre coorte.
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

Neste poema, notam-se a influência de Cruz e Sousa, a adjetivação constante e a musicalidade dos versos. Além disso, ele prenuncia a temática em que mais tarde se firmaria o poeta: a morte.

Em 1903, Augusto dos Anjos inscreve-se na Faculdade de Direito da cidade de Recife, tornando-se bacharel em 1907. O ano de 1905 marca a morte de seu pai – o que o leva a compor três sonetos (presentes em “Eu”). Ainda que formado em Direito, o poeta nunca exerceria tal profissão, atuando durante quase todo o tempo como professor.

A crise no sistema açucareiro do Brasil, no início do século XX, levaria o Engenho de Pau D’Arco à decadência, acentuada pela morte em 1908 do patriarca da família, Aprígio Pessoa de Melo (padrasto da mãe do poeta). Augusto mantém-se à época de aulas particulares na capital da Paraíba e assiste, impotente, à falência do Engenho. No fim deste ano, é admitido como professor no Liceu Paraibano e leciona também no Instituto Maciel Pinheiro. Participa do jornal Novenar e colabora com a revista Terra Natal. Sente-se infeliz por não conseguir um emprego que lhe proporcione suprir adequadamente as despesas. Vive a maior parte do tempo em condições financeiras bem razoáveis.

Posteriormente, em 1910, a família se vê obrigada a vender o Engenho para quitar as dívidas. No mesmo ano, Augusto casa-se com Ester Fialho e publica em A União os poemas “Mistérios de um fósforo” e “Noite de um visionário”; em seguida, muda-se com a mulher para o Rio de Janeiro, demitindo-se do Liceu Paraibano. Ao que tudo indica, tinha o intuito de difundir sua obra poética em círculos mais amplos. Sem emprego, passa muitas dificuldades no primeiro ano no Rio, mudando-se constantemente de uma casa para outra.

O ano de 1911 traria outro evento importante na vida e na obra do poeta: Ester, grávida de seis meses, perde em janeiro seu primeiro filho – o que serve de inspiração para mais um poema que integra o livro “Eu”. Nasce em novembro sua filha Glória. Publicado no ano seguinte, em 1912, e chamando a atenção da crítica e dos leitores pela temática e vocabulário incomuns, o único livro de Augusto é, a princípio, mal compreendido e rejeitado. Augusto e seu irmão Odilon custearam a publicação de 1000 exemplares da obra que é hoje uma das mais importantes de nossa literatura. Em 1913, nasce o segundo filho do poeta: Guilherme Augusto.

Em 1914, nova mudança: transfere-se para Leopoldina (Minas Gerais), onde se torna diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. Publica na Gazeta de Leopoldina um de seus maiores sonetos: “O lamento das coisas”, pertencente à sua fase poética mais matura. Esse período é marcado por tranquilidade financeira com a conquista do novo emprego. Augusto fica entusiasmado com os novos acontecimentos. Entretanto, por força do destino, no final de outubro desse mesmo ano, adoece de pneumonia. Morre precocemente, com apenas 30 anos, às 4 horas da madrugada do dia 12 de novembro.

Infelizmente, o poeta não gozaria de reconhecimento em vida e só foi aclamado pela crítica depois da Semana de Arte Moderna. “Eu” alcança grande sucesso em 1928, em sua terceira edição, publicada pela Livraria Castilho, do Rio de Janeiro. Nas edições seguintes, seriam acrescentadas ao primeiro livro as “Outras Poesias”, compostas depois de 1912. Na obra completa de Augusto dos Anjos, estão também os “Poemas Esquecidos” e os “Outros Poemas Esquecidos” – coletânea das primeiras publicações do poeta (em jornais e revistas) que não foram incluídas no “Eu”.

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