Dia de Todos os Pássaros – Ana Santos

O azulão

Os azulões comunicam
nada
e, afinal, são mais comuns
do que eu pensava.

O bem-te-vi

Um bem-te-vi miúdo se equilibra
na corda bamba de um galho
em flor.
Outro, crescido, passeia,
saci
(a dor do graveto,
quebrado
por mão distraída).
De uns tantos, mortos
(o susto repetido nas calçadas),
me esqueci,
me esqueci.

O colibri

Sou tão triste
que todo colibri é uma esperança
desvairada
– de quê?
Este é o reino do acaso.
Ninguém zela por mim,
ninguém espalha
colibris por meu caminho.

O joão-de-barro

João-de-barro
bate à janela,
miçangas fitas em mim.
Ele sabe o que fiz
(gatuna de ninhos
e crisálidas):
ele sabe
e, com a garganta,
me perdoa.

O pardal

Mesmo o pardal
me traz consolo,
mesmo ele,
bicando mansamente
essas migalhas,
em meio à chusma
de seus iguais.

O sabiá

Só porque um sabiá
achou água entre monturos
(boa o bastante
para sua sede),
só por isso recolho
álcool, fósforos,
desisto
de incendiar o mundo.

Ana Santos

Poema extraído do livro Móbile. São Paulo: Patuá, 2017.

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