Formação Sociocultural Brasileira

As Heranças do Brasil Colonial

Para tentarmos entender melhor a formação da sociedade brasileira, é interessante saber primeiramente como se estruturava a sociedade colonial. As características do Brasil Colonial e o processo de colonização explorador e violento que vivenciamos são essenciais à compreensão da nossa sociedade, isto é, ao reconhecimento dos elementos étnicos que nos permeiam e à superação das inúmeras mazelas sociais que até os dias de hoje nos assolam.

Temos que inicialmente destacar que é fator constituinte básico da sociedade colonial brasileira a presença de três elementos étnicos fundamentais: o branco, o negro e o índio – numa convivência marcada por inúmeros conflitos e desigualdades.

A FAMÍLIA PATRIARCAL

O primeiro ponto a se ressaltar nas famílias coloniais é a sua referência patriarcal. A base das famílias era o patriarca, que não só exercia poder sobre os seus subordinados, mas também definia o destino de todos os outros entes: determinavam com quem as filhas iam se casar; preparavam os filhos para assumir as suas funções no futuro, como herdeiros legítimos, ou mesmo lhes indicava a profissão (cargo público ou o bacharelado); e submetiam as esposas, que não tinham nenhum tipo de direito, apenas aos afazeres domésticos e à procriação – não lhes permitindo nenhuma participação sobre as decisões representativas da família.

Tais características das famílias patriarcais atingiriam o seu ápice nos engenhos de cana-de-açúcar.  Em outras palavras, queremos dizer que os senhores de engenho foram os patriarcas mais autoritários. Isso ocorreu sobretudo em decorrência da relação metrópole-colônia. Como não pudesse a metrópole administrar e controlar devidamente todas as regiões do Brasil e considerando que as regiões canavieiras eram mais isoladas, os senhores de engenho sofriam menor influência do poder português – o que os tornava ainda mais soberanos em seus domínios. Tal fato culminaria num abuso de poder ainda maior por parte dos senhores e os faria mais cruéis nas relações de trabalho, o que implicou a escravidão ainda mais severa dos negros e o extermínio das populações nativas que se lhes opusessem aos interesses.  Como exemplo alegórico, poderíamos comparar os engenhos às sociedades feudais (descentralizadas) – onde, embora existisse a figura do rei, detinha maior poder quem possuísse maior quantidade de terras (na prática, os senhores feudais).

RELAÇÕES SOCIAIS NA COLÔNIA

As relações sociais que se davam no Brasil Colonial, isto é, a convivência entre os elementos étnicos que constituíram nosso país, não foram pacíficas ou democráticas. Ao contrário disto, via-se um ambiente hostil na colônia, marcado pelo domínio do branco sobre o negro e o índio. Esse domínio justifica-se e impõe-se através da superioridade bélica dos europeus, que se julgavam superiores também do ponto de vista étnico e cultural.

Os negros foram tidos como um instrumento de trabalho, como uma ferramenta que movimentava a indústria da cana, e os índios, como povos extremamente primitivos. Não é à toa que os portugueses nos impuseram seus principais componentes culturais, como a organização social e política, o idioma, a religião, dentre muitos outros elementos. Não podemos esquecer também que o pensamento europeu considerava os trabalhadores membros inferiores da sociedade e admitia que a divisão em classes seria, assim como ocorria no Feudalismo, uma determinação divina – que não deveria ser questionada ou gerar insatisfação.

Como se pode imaginar, a sede de enriquecimento das Coroas Ibéricas e a necessidade de garantir o funcionamento do Sistema Açucareiro foram responsáveis pelas inúmeras atrocidades contra esses povos, que se traduziam na escravidão, no abuso de poder dos senhores, nas diversas práticas de tortura e violência e na total desconsideração dos direitos de índios e negros. Tais acontecimentos figuram como uma mácula enorme na história do povo brasileiro e até mesmo nos dias de hoje presenciamos suas consequências. Acerca desse aspecto, vale observa o que afirmou Caio Prado Júnior, na obra Formação do Brasil Contemporâneo:

A escravidão na Grécia ou em Roma seria como o salariado em nossos dias: embora discutida e seriamente contestada na sua legitimidade por alguns, aparece contudo aos olhos do conjunto como qualquer coisa de fatal, necessário e insubstituível. Coisa muito diferente se passará com a escravidão moderna, que é a nossa. Ela nasce de chofre, não se liga a passado ou tradição alguma. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser, e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas. Surge assim como um corpo estranho que se insinua na estrutura da civilização ocidental, em que já não cabia. E vem contrariar-lhe todos os padrões morais e materiais estabelecidos. Traz uma revolução, mas nada a prepara.

Trecho extraído da edição publicada pela Editora Brasiliense, 2000 (página 270).

É importante ressaltar que, diferente do que muito tempo se afirmou, o domínio europeu sobre índios e negros não ocorreu de forma rápida nem foi um processo fácil. Não. Houve muitas formas de resistência a esse sistema desumano. No caso dos negros, além das sabotagens engendradas para causar prejuízos ao sistema açucareiro, havia as constantes fugas do engenho e a formação de sociedades paralelas, os quilombos.

O BRASIL DE HOJE

Inúmeras analogias podem ser feitas em relação às heranças deixadas tanto pela família patriarcal quanto pelas relações sociais no Brasil Colonial. Da família patriarcal, percebemos atualmente o machismo ainda existente em nossa sociedade, a autoridade (muitas vezes excessiva) de pais sobre filhos e o fato de ainda existir “senhores”, que, cobertos de poder, governam grandes latifúndios nos quais, muitas vezes, ainda ocorre trabalho escravo, sobretudo em locais muito isolados, em que não há fiscalização.

Em se tratando dos índios, infelizmente notamos que a maioria dos povos indígenas, legítimos habitantes da nossa terra, foi dizimada. As etnias remanescentes permanecem firmes, na tentativa de manter viva a sua cultura, e não raro estão envolvidas em conflitos com fazendeiros em prol da terra que lhes foi tomada e lhes é de direito.

No caso dos negros, temos como consequência inaceitável da nossa história o preconceito racial, que ainda permanece. Entretanto, é inegável a importância desses elementos na formação e constituição da nossa nacionalidade, do nosso Brasil heterogêneo, seja na culinária, na música, nas manifestações culturais ou, de forma mais ampla, no nosso imaginário social.

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