Gênero Gramatical: Tradição Normativa e Linguística Moderna

Nessa postagem, analisaremos as questões voltadas à realização do gênero considerando a abordagem tradicional e os estudos linguísticos.

Os gêneros existentes na Língua Portuguesa (masculino e feminino) existem por uma imposição gramatical e não apenas para a distinção de sexo. Todos os substantivos possuem gênero, até mesmo quando representam seres assexuados ou conceitos abstratos.

GÊNEROS E TRADIÇÃO NORMATIVA

Segundo a tradição normativa, o substantivo será masculino se anteposto pelo artigo o e feminino, pelo artigo a. Os substantivos podem ser, nessa concepção, classificados em:

1- Biformes: correspondem aos substantivos que apresentam duas formas, uma para o masculino e outra para o feminino.

Exemplo: menino /menina; aluno/ aluna.

Observação: Geralmente, são biformes os substantivos que representam seres vivos.

2- Uniformes: correspondem aos substantivos que apresentam apenas uma forma para o masculino e o feminino. Dividem-se em:

2.1- Epicenos: relacionam-se a alguns animais, podendo, para a diferenciação, vir acompanhados de palavras elucidativas, como macho e fêmea. Admitem a anteposição de um único artigo.

Exemplo: a cobra macho/a cobra fêmea.

2.2- Comuns a dois gêneros: apresentam também uma só forma para o masculino e o feminino. A distinção de sexo pode ser feita analisando-se o artigo, adjetivo ou pronome ligado ao substantivo.

Exemplo: o motorista/a motorista; minha gerente/meu gerente.

2.3- Sobrecomuns: Correspondem aos substantivos que apresentam uma única forma para designar ambos os sexos. Admitem um único artigo.

Exemplo: o animal, a pessoa, a criança (essas palavras podem referir-se tanto ao feminino quanto ao masculino).

FORMAÇÃO DO FEMININO E HETERONÍMIA

Em geral, as gramáticas normativas apresentam um conjunto de regras para a formação do feminino. As principais são as seguintes:

– A troca do artigo o por a ou do e por a, como em garoto/garota e mestre/mestra, respectivamente.

– O acréscimo do artigo a, como em cantor/cantora.

– A mudança de ão por ã, oa ou ona, como nos pares anão/anã, leão/leoa, valentão/valentona.

– O acréscimo de esa, essa, isa, ina, triz.

É importante citar ainda a heteronímia –  fenômeno caracterizado pela existência de duas formas completamente distintas para o masculino e feminino.

Exemplo: bode/cabra; boi/vaca.

É comum ver nas gramáticas normativas imposições em relação ao gênero de algumas palavras, que, na realidade, aceitam tanto o masculino quanto o feminino. É o caso de palavras como “alface” e “dinamite”, que, consoante a tradição, devem ser consideradas femininas.

Sobre esse tópico, vejamos o que diz Zanotto:

A tradição gramatical aborda com superficialidade a questão do gênero. Limita-se normalmente a afirmar a existência, no Português, de dois gêneros, a citar, sem posicionar bem, os chamados epicenos, sobrecomuns, comum de dois, a listar femininos difíceis, e a induzir, algumas vezes, à confusão entre gênero e sexo. (ZANOTTO, 1999, p. 58)

GÊNERO E LINGUÍSTICA

Do ponto de vista linguístico, todos os substantivos possuem gênero por uma exigência gramatical classificatória: são necessariamente masculinos ou femininos. O gênero diferencia o sexo apenas em alguns casos, como o dos seres vivos, por meio dos processos de flexão (menino/menina), derivação (conde/condessa) e heteronímia (homem/ mulher).

Vale dizer também que o gênero de uma palavra quase nunca tem relação com o seu significado. Assim, se a maioria dos substantivos mudar de gênero, não haverá alteração de ordem semântica. Tal argumento se justifica pelo fato de muitas palavras derivadas do Latim terem mudado de gênero, sem que, no entanto, tenha ocorrido mudança de sentido. Como exceção, apresenta-se um pequeno grupo de palavras:

Exemplos: o capital/a capital; o cabeça/a cabeça; o espinho/a espinha, etc.

Nos casos acima, a alteração de gênero provoca alteração de significado.

A DETERMINAÇÃO DO GÊNERO

Na Língua Portuguesa, o gênero é determinado pelos artigos ou por termos determinantes. Assim, considera-se “casa” um substantivo feminino, porque pode ser anteposto pelo artigo “a”. Do mesmo modo, até as palavras que não aceitam apenas a anteposição de artigo podem ter seu gênero identificado por pronomes ou adjetivos, em frases como “Portugal é lindo” ou “A bela Salvador”.

Na morfologia, considera-se relevante a análise do processo de flexão. Diferente do que supõe o senso comum, os substantivos terminados em “o” e em “a” nem sempre caracterizam o masculino e o feminino. A palavra “poeta”, por exemplo, é masculina, e a palavra “tribo”, feminina.

Para Câmara Jr. (1971), em pares opositivos como menino x menina, a terminação “o” não é um morfema masculino. Na concepção do autor, trata-se de uma vogal temática, que, com o acréscimo do morfema feminino “a”, sofre supressão. A fundamentação parte do pressuposto de que, se considerarmos “o” morfema masculino nesses casos, teremos que fazer o mesmo com a terminação “e” em pares como mestre x mestra. E não é tão fácil atribuir características de masculino ao “e”, uma vez que ele determina palavras dos dois gêneros arbitrariamente: “ponte” (feminino) e “monte” (masculino).

Por outro lado, Kehdi (1990) propõe uma revisão nas definições de Câmara Jr., justificando que, ao acrescentarmos a terminação “o” a um substantivo feminino, ele se tornará masculino: mulher/mulheraço, cabeça/cabeçalho. Afirma também que a linguagem cotidiana cria novas palavras masculinas utilizando o “o”, como crianço, coiso, madrasto.

REFERÊNCIAS

CÂMARA JR, Joaquim Mattoso. A análise do vocábulo mórfico. In: CÂMARA JR. J. M. Problemas de lingüística descritiva. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1971.

KEHDI, V. Morfemas do português. São Paulo: Ática, 1990.

TERRA, Ernani. Curso prático de gramática. 5. ed. São Paulo: Scipione, 2007.

ZANOTTO, Normélio. Estrutura mórfica da língua portuguesa. 3. ed. Caxias do Sul: Educs, 1999.

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