Introdução – Fotografia e Memória – Michelon

Eugène Pelletan (1855-59), Nadar

Se, em um tempo futuro, muito distante, só tivessem sobrado de nós vestígios e alguns deles fossem encontrados, e, entre esses, fotografias, pensemos que um fato seria possível: por meio delas, para os que as encontrariam, poderia se operar uma revelação. As fotografias diriam sobre quem fomos e como vivemos. Caso os habitantes do futuro encontrassem, por acaso, soterrado um arquivo de fotografias de guerra, quem sabe deduziriam a ignóbil condição daquela humanidade perdida e suspirariam de alívio pela nossa extinção. Se, ao contrário, o que encontrassem fossem álbuns de uma prosaica família, apreciariam crianças fotografadas, ao longo dos anos, sempre tão divertidas, cenas de trivial alegria.

Por um lado, redução: há como superar a finitude. Por outro, castigo: não se esquecerá enquanto houver a fotografia. O que se lembra diante do retrato de um anônimo fotografado no séc. XIX? Há sempre um encanto imanente nessas imagens do passado; são como pontos que não se cruzam, como caminhos indicados por setas que parecem levar a lugar nenhum. Mas nos fazem desejar, pela expectativa do que se pode ver do outro lado, cruzá-los.

Um postulado pode ser enunciado nos termos de que, se está na imagem, existe; ou, tratando-se de fotografia, se está na foto, existiu e pode ou não ainda existir. Na esteira dessa lógica, então, seria aceitável considerar que esquecer é humano e lembrar é fotográfico. Se remontarmos às nossas experiências, considerando o álbum de família, seguramente a maioria de nós dará como depoimento a surpresa do encontro com o passado. A palavra encontro talvez seja um superlativo do que realmente acontece, visto que o máximo que a fotografia nos oferece é a possibilidade de uma projeção do aproximar-se com o que foi. Há uma tendência em acreditarmos na foto, desde, é claro, que a informação nela contida não desestabilize nossas certezas projetadas em imagens mentais sobre o passado. Uma personagem de Virginia Wolf comenta: “Não possuímos as palavras. Elas estão por trás dos olhos, não sobre os lábios”. E sem as palavras, o que contariam as fotografias? Talvez não possam contar, mas seguramente alguma coisa do passado vem evocada nelas, como a dúvida, ou no mínimo a nostalgia daquele fato fragmentado em imagem, na referência a outra pessoa em uma festa perdida na lembrança.

Adaptado de: MICHELON, F. F. Introdução. In: MICHELON, F. F.; TAVARES, F. S. (orgs.). Fotografia e memória. Pelotas, RS: EdUFPel, 2008. p. 7-15.

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