Musicais: Dançando no Escuro

Quem não gosta de filmes musicais normalmente justifica sua aversão argumentando que “na vida real ninguém começa a cantar e dançar de repente”. Os detratores do gênero também o associam de imediato às tramas pueris e românticas características de sua Era de Ouro (final dos anos quarenta, anos cinquenta e início dos anos sessenta). Eles estão certos. E não estão.

Muitas vezes, o que se entende por um musical típico é, sim, “água com açúcar”. Sim, os atores cantam e dançam sem razão aparente, porque os números musicais são, em maior ou menor grau, o fio condutor da história – servem para avançar o enredo ou expressar o estado de espírito das personagens.

Existem, porém, musicais e musicais. Não há nada de errado com clássicos americanos como Cantando na Chuva (1952), Cinderela em Paris (1957), A Noviça Rebelde (1965) ou Minha Bela Dama (1964), por exemplo (sendo esse último especialmente incrível). Quero me ater, no entanto, a comentar alguns filmes que, por um motivo ou outro (contexto histórico, local de produção, estilo do realizador…), fogem ao estereótipo.

Esta postagem traz a primeira de uma série de sugestões de musicais “alternativos”. Atenção: pode conter spoilers!

DANÇANDO NO ESCURO [DANCER IN THE DARK]  (Dinamarca/Alemanha/Holanda, 2000)
Direção e roteiro: Lars von Trier
Música: Björk (letras de Lars von Trier e Sjón Sigurdsson)
Coreografia: Vincent Paterson
Elenco: Björk, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare

“Eu sonhava estar em um musical, porque em um musical nada de horrível acontece”. Essa afirmação de Selma (Björk), cega e às vésperas de seu enforcamento, talvez seja uma das mais paradoxais da história do cinema: em Dançando no Escuro, o musical que ela protagoniza, tudo de horrível acontece.

Imigrante tcheca nos Estados Unidos, Selma junta o dinheiro que ganha na fábrica onde trabalha para uma operação que impedirá seu filho pré-adolescente de ficar cego (devido a uma doença hereditária). Os dois moram em um trailer nos fundos da casa do policial Bill (David Morse) e de sua esposa. Tudo vai mais ou menos bem até que Bill, afundado em dívidas, resolve roubar as economias de Selma. Logo depois, numa sequência angustiante, Selma se vê obrigada a matá-lo para recuperar o dinheiro.

É no número seguinte ao assassinato de Bill que se percebe claramente a função das canções ao longo da trama. Na parte musical do filme, tudo é possível, todos os males são desfeitos: o morto se levanta e perdoa Selma (“o tempo que uma lágrima demora para cair/ que uma cobra demora para trocar de pele/ é o tempo necessário para perdoar”).

Esse mesmo contraste entre o que é e o que poderia ser (muito eficaz em arrancar rios de lágrimas do espectador) ocorre na cena do julgamento, quando Selma imagina todos os presentes dançando e cantando que estarão “sempre lá para ampará-la” (como geralmente acontece nos musicais – a sincronia dos bailarinos impede qualquer queda). Aqui há a participação especial de Joel Grey como Oldrich Novy, antigo astro de musicais tchecos que Selma diz ser seu pai.

A pungência das letras e a doçura das melodias de Björk emprestam beleza até aos momentos mais cruéis do filme. Next to last song, o último número (e o único “real”), é prova disso: “esta não é a última canção/ não há violino/ o coro está tão quieto/ e ninguém faz uma pirueta/ esta é a penúltima canção/ e isso é tudo”.

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