O Guardador de Rebanhos

A obra poética de Alberto Caeiro – um dos heterônimos de Fernando Pessoa – é magistral e, não sem razão, tornou-se um patrimônio da Língua Portuguesa. Os primeiros poemas, que mais tarde integrariam O guardador de rebanhos, foram escritos em 08 de março de 1914 – data luminosa porque coincide com o nascimento da heteronímia poética de Pessoa. Caeiro é, portanto, a base da imensa árvore da qual floresceriam outros heterônimos, como Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Ao que tudo indica, naquele 08 de março, Pessoa teve uma grande inspiração/revelação, que o modificou para sempre e o guiou a uma nova maneira de enxergar o mundo. A partir de Caeiro, a sua obra se consolidou como uma das mais geniais de todos os tempos. António Mora reconhece a importância de Caeiro com a seguinte declaração: “Alegrai-vos, todos quantos gemeis nas prisões e nas celas. O Grande Pã renasceu!”. O próprio Pessoa sabia da grandiosidade do que tinha feito. Guardou o original por muitos anos, numa espécie de fascinação cuidadosa, não o tendo publicado em vida.

Se em Mensagem Pessoa (ortônimo) se afirma como grande poeta pelo complexo jogo simbólico, pela perfeição formal, pela personalidade irônica que reconstrói tão livremente a história de Portugal, temos em Caeiro um cenário bem distinto. O mais impressionante no guardador de rebanhos é a simplicidade com a qual ele abarca o mundo à sua volta e o transforma; simplicidade que também se reproduz no verso por meio da linguagem clara, verbal, direta.

Caeiro fundou a chamada “ciência do ver”, que nega tudo o que provém do pensamento. Para ele, o que existe é o que se pode apreender pelos sentidos. Pensar nas coisas é não conhecer as coisas. O pensamento seria, em suma, uma maneira de mentir. Essas e outras ideias constituem o sensacionismo – tendência que repercute em toda a obra pessoana.

O guardador de rebanhos  é genial por ser uma obra essencialmente poética, o que não é uma obviedade. A verdadeira poesia é aquela que consegue levar o homem à transcendência, isto é, a que consegue libertá-lo de sua alienação. Poucos fizeram isso tão bem quanto Caeiro.

Nesse breve texto, em março, mais de 100 anos depois, temos novamente a necessidade de escrever sobre Fernando Pessoa – apenas como uma humilde forma de agradecer.

Abaixo, transcrevemos um dos poemas de Alberto Caeiro.

O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro)

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Leia aqui outro poema de Alberto Caeiro.

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