Pesquisa em Gramática – Mário A. Perini

A pesquisa em gramática também tem seus mistérios – aspectos da língua que ninguém conseguiu até hoje formular direito. Acho que não exagero se disser que a maioria dos fenômenos gramaticais já observados não tem uma explicação satisfatória. Vejamos um exemplo.

Sabemos que, em muitas frases, o sujeito exprime o ser que pratica a ação (ou, mais exatamente, que causa o evento). Isso acontece na frase: Minervina entortou meu guarda-chuva. Acontece que, com o verbo entortar, nem sempre o sujeito exprime quem pratica a ação. Se não houver objeto, isto é, se só houver o sujeito e o verbo, o sujeito exprime quem sofre a ação, como em Meu guarda-chuva entortou. Essa frase, naturalmente, não significa que o guarda-chuva praticou a ação de entortar alguma coisa, mas que ele ficou torto. Mesmo se o sujeito fosse o nome de uma pessoa (que, em princípio, poderia praticar uma ação), o efeito se verifica: Minervina entortou. Essa frase quer dizer que Minervina ficou torta, não que ela entortou alguma coisa.

A mudança de significado do sujeito que vimos acima acontece com muitos verbos do português; por exemplo, quebrar, esquentar, rasgar. Uma vez que é bastante regular, esse comportamento deve (ou deveria) ser incluído na gramática portuguesa.

 Agora, o mistério: em certos casos, o fenômeno da mudança de significado do sujeito não ocorre, e ninguém sabe ao certo por quê. Assim, podemos dizer O leite esquentou, e isso significa que o leite se tornou quente, não que ele esquente alguma coisa. Mas na frase Esse cobertor esquenta, entende-se que o cobertor esquenta a gente (isto é, causa o aquecimento), e não que ele se torne quente.

Ninguém sabe direito por que verbos como esquentar (e vários outros) não se comportam como o esperado em frases como essa. Provavelmente, o fenômeno tem a ver com a situação evocada pelo verbo. Mas falta ainda um estudo sistemático, e, por enquanto, esses fatos não cabem em teoria nenhuma.

Enfim, para quem gosta de certezas e seguranças, tenho más notícias: a gramática não está pronta. Para quem gosta de desafios, tenho boas notícias: a gramática não está pronta. Um mundo de questões e problemas continua sem solução, à espera de novas ideias, novas análises, novas cabeças.

Adaptado de: PERINI, M. A. Pesquisa em gramática. In: Sofrendo a gramática: ensaios sobre linguagem. São Paulo: Ática, 2000. p. 82-85.

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