Poemas de Babilônia – Ruy Espinheira Filho

Babilônia

Ontem não vi você em Babilônia
Num fragmento de argila, em escrita cuneiforme,
cerca de 3.000 anos a.C.

Ao saber da notícia, revivi
aquela noite funda em que escrevi
(afogava-me um pântano de insônia):

Ontem não vi você em Babilônia.

Só o que restou de tudo: um fragmento
de tabuinha que escapou do vento
do Tempo. Sob o pó, pulsando, a insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Foi a última vez que lhe escrevi
e nenhuma resposta recebi.
Ainda respiro o que chorei na insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Os arqueólogos me decifraram
e, milênios além, se emocionaram,
por ser só amor e dor a voz da insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Era o bastante. O Tempo na tabuinha
quase tudo apagou da história minha,
porém deixou o essencial da insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

E assim contam-se vida e seus escombros
que um dia se partiram nos meus ombros.
E na alma, desde então, só noite e insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Soneto do Longe

Sorri, o amigo morto, na memória
e na fotografia. Ah, longe a vida,
aquela, que deixou esta perdida,
fechando o livro de uma bela história.

Desce a sombra da noite. Fico olhando
para a grande distância onde já fui
feito da luz que agora se dilui
numa sombra que aos poucos vai baixando

mais que na noite. Vasta, espessa sombra
que, íntima, me envolve, fria, e assombra
tudo o que sou. E continuo a olhar

o longe em mim, como por vida afora
hei de ficar, até chegar a hora
de o que resta do Tempo se apagar.

Ruy Espinheira Filho

Poemas extraídos da obra Babilônia & Outros Poemas. São Paulo: Patuá, 2017.

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