Professor Nestor – Artigo de Jorge Portugal

Essa história Mabel Velloso contou aos meus 14 anos: Caetano, ainda adolescente, estudava no Ginásio Teodoro Sampaio quando, um dia, o professor de Português recitou, com belíssima voz de poeta, um poema de sua autoria intitulado Ciclo. O garoto, atento, copiou o texto, levou-o pra casa, sentou-se ao piano e desenhou uma melodia para os versos. Nascia ali a primeira composição do futuro gênio da MPB. Nome do professor: Nestor Oliveira.

Mas não foi apenas Caetano Veloso que ele inspirou. Na verdade, professor Nestor Oliveira foi farol de umas duas gerações e de uma cidade inteira. Até hoje, se você, leitor(a), conversar com algum santamarense de prosa cativante, concordância e regência impecáveis, conhecimento literário acima da média, e lhe perguntar em que instituto de letras estudou, receberá a pronta resposta: eu fui aluno(a) de professor Nestor!

Nestor era Poeta e levava vida de poeta. Boêmio de tempo integral, amante-devoto das mulheres, total descompromisso com as estúpidas burocracias que empobrecem a vida, por insistência dos amigos, candidatou-se a vereador em idos dos 1970 e obteve votação exponencial. Tornou-se presidente da Câmara e eventual substituto do prefeito, vez que naquele tempo não havia vice-prefeito. Genebaldo Correia, chefe do executivo, teve que ausentar-se por três semanas de Santo Amaro e passou o cargo a Nestor. O professor-poeta não pensou duas vezes e perpetrou sua grande obra como prefeito: mandou fazer um calçamento “de primeira” em toda a zona do meretrício da cidade! A ingratidão, com certeza, não estava entre seus possíveis defeitos.

Intelectual de proa, poeta dos maiores – parceiro e amigo de Édio Souza, Clóvis Amorim, Godofredo Filho e Jorge Amado – Nestor faria 100 anos neste 2013. A cidade, que deveria instituir “O Ano Nestor Oliveira”, ainda não lhe fez uma devida homenagem. Nem a Câmara, nem a Prefeitura. Lamento e espero. Infeliz não é o povo que precisa de heróis; mas o que os têm em abundância e não os valoriza.

Leia os dois sonetos que separamos do poeta:

Obstinação

Pelo prazer de voar tal qual uma asa,
Ou folha solta sobre errante veio,
Indiferente à dor, à mágoa alheio,
Feliz na bruma ou renteando a vasa…

Fiel ao sonho eterno que te abrasa,
Dentro da cerração, da noite em meio,
Voar sem rumo seja o teu anseio
Que tu, meu coração, és também asa!

Asa solta de um pássaro sem ninho,
Desamando os limites, sem caminho,
Com a flama do ideal que agito em mim,

Na vertigem da glória desmedida
De voar, de voar, que é um voo a vida,
De morrer voando sem chegar ao fim!

Soneto a Sônia

Ando a procura da palavra doce,
A de mais branda e leve tessitura,
Capaz de traduzir toda a ternura
Que Sônia, num sorriso, ontem, me trouxe…

O imenso esforço meu se desfigura
Como se vivo e forte ele não fosse.
Pois minha ânsia vencida evaporou-se
No tormento ideal dessa tortura.

Quero-a vinda do luar diluído em prata,
Que tanto pode o amor, velho amuleto,
Que sobre os cardos florações desata.

E cante nos rosais deste soneto,
Tal como a Cotovia, na hora exata,
Nos odoros jardins de Capuleto!

Poemas extraídos de Espelho de Três Faces. Santo Amaro: Imprensa Oficial de Santo Amaro, 1977.

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