Rain Man: uma Oportunidade de Encontro

Enredo geral

Rain Man, de 1988, é um belíssimo longa dirigido por Barry Levinson que nos leva a uma série de reflexões sobre deficiência, autismo e (in)exclusão. Estrelado por Dustin Hoffman (Raymond Babbitt) e Tom Cruise (Charlie Babbitt), o filme é considerado um marco essencial justamente por apresentar às telas de todo o mundo, com rara sensibilidade, a questão do autismo.

Destaca-se, a cada cena, a grande atuação de Hoffman, digna do Oscar que ganhou, ao dar vida a Raymond– um autista savant.

A trama se inicia quando Charlie Babbitt – jovem aparentemente frio e egoísta, dono de uma concessionária de carros – recebe a notícia da morte do pai. Charlie, que já havia perdido a mãe aos dois anos de idade, se mantém, de certa maneira, indiferente. Ele não falava com o pai desde que saíra de casa, muito jovem, para nunca mais voltar.

Além do relacionamento difícil entre pai e filho como panorama geral, há também um evento traumático decisivo para o afastamento de Charlie: quando completou 17 anos, ele pediu o carro emprestado ao pai para comemorar com os amigos o excelente desempenho na escola. O pai, entretanto, lhe disse não. Revoltado, Charlie pegou o carro mesmo assim. O pai então acionou a polícia como se o veículo tivesse sido roubado. Charlie foi detido e passou dois dias na prisão. Os amigos foram liberados imediatamente por meio de pagamento de fiança.

Depois de comparecer ao enterro, Charlie descobre, durante a leitura do testamento, que o pai lhe deixou como herança apenas uma coleção de rosas e, ironicamente, o mesmo carro que ele havia utilizado sem sua permissão na adolescência (um Buick 1949), ao mesmo tempo que a quantia de US$ 3 milhões é destinada aos cuidados de um fiduciário (Dr. Bruner) para que seja utilizada em benefício de alguém desconhecido.

Com muita raiva e inconformado, Charlie decide investigar melhor a história e acaba chegando a um instituto para pessoas com deficiência (Walbrook Institute). Lá, toma ciência de um fato que vai desestruturá-lo completamente: a fortuna do pai foi deixada para Raymond, que é, na verdade, seu irmão mais velho, do qual ele nunca teve conhecimento.

Charlie então sequestra Raymond com o objetivo de ter acesso aos milhões. Os dois seguem juntos numa jornada incrível e é a partir dessa viagem que serão propostas questões fundamentais sobre a deficiência.

É interessante dizer, ao analisar o enredo geral, que a opção por trabalhar com automóveis é um aspecto particularmente relevante da personalidade de Charlie, considerando o evento que lhe é mais doloroso. Também o Buick 1949 é um símbolo forte, que representa o elo entre o pai e os filhos, afinal de contas, Raymond costuma dizer, amiúde, que é “um excelente motorista”, porque se lembra precisamente das vezes que dirigiu com o pai. O primeiro encontro entre os irmãos se dá também pela presença do veículo.

O que eles aprendem um com o outro durante a viagem (de carro, no Buick, já que Raymond se recusa a viajar de avião) impressiona porque envolve aflições, conflitos e questionamentos genuinamente humanos.

Ao espectador atento, não passará despercebida a possibilidade de inclusão de Raymond. É aberta uma improvável janela entre dois mundos – abertura que talvez permitisse a Raymond conviver plenamente em sociedade, subverter os preconceitos daqueles que esperam pouquíssimo dele e, quem sabe, alcançar a cidadania e a dignidade necessárias a todo ser humano.

Um olhar sobre Raymond   

Raymond reúne uma série de características do autismo típico: fuga do contato visual, extrema preocupação com os afazeres de sua rotina, a ponto de cronometrá-los minuciosamente, dificuldade de socialização e linguagem por vezes desconexa, com frases repetidas e rupturas sintáticas e/ou semânticas.

Atualmente, o autismo, segundo a Associação Americana de Psiquiatria, é definido como Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para Gadia, Tuchman e Rotta (2004) apud Neves et al. (2014, p. 49),

[…] o autismo típico é caracterizado por manifestações comportamentais que incluem déficits qualitativos na interação social e na comunicação, padrões de comportamento repetitivos e estereotipados e repertório restrito de interesses e atividades.

A questão de conceituar o autismo é fundamental no filme e há uma tentativa clara de trazê-la ao espectador, não raro por meio de alguns recursos didáticos, como, por exemplo, a explicação da condição de Raymond a Charlie e também a visita de Raymond a um médico.

Se, em finais da década de 80, o autismo gerava uma grande quantidade de dúvidas e discussões, além de possuir difícil diagnóstico, pode-se dizer que o filme procura afastar de Raymond a ideia de retardamento mental. Quando Rios et al. (2015, p. 326) nos apresentam o aumento vertiginoso no número de casos de autismo ao analisar a presença desse tema na mídia impressa, usando a metáfora da epidemia, é interessante destacar o seu marco inicial:

Especula-se, também, que a dita epidemia seja fruto de uma reconfiguração na rede de cuidados a essa população, que teve como marco inicial a desinstitucionalização do retardo mental no final dos anos 1960 nos Estados Unidos. Tal argumento não aponta, exclusivamente, para uma substituição diagnóstica do retardo mental por autismo mas, sobretudo, para o efeito que a rede de cuidados que se formou em torno do autismo teve no sentido de conferir mais visibilidade a esse diagnóstico.

Outro aspecto – não menos relevante – da personalidade de Raymond é o fato de ele também possuir o que passou a se chamar Síndrome de Savant[1]. Raymond conjuga, ao mesmo tempo, altas habilidades e consideráveis déficits, principalmente no que se refere às questões da vida prática. Quando Charlie o leva a um clínica a fim de obter respostas sobre a condição do irmão, o médico realiza pequenos testes. Raymond consegue resolver problemas matemáticos complexos com muita rapidez (até mesmo contas de multiplicar envolvendo dois números de quatro dígitos), mas não sabe dizer o troco numa compra simples no mercado.

As ideias sobre a Síndrome de Savant (antigamente chamada de síndrome do idiota-sábio), embora conhecidas já no final do século XVIII, foram descritas em 1889 pelo psiquiatra britânico John Langdon Down, responsável também pelo primeiro relato científico da Síndrome de Down. A característica principal do Savantismo – genialidade associada a algum problema mental – ainda desperta grande interesse da comunidade científica. Tal oposição contribui para que Raymond seja cativante e desafiador.

Embora não saibamos quase nada da vida de Raymond antes de ele chegar a Walbrook, é possível indagar como se daria o seu desenvolvimento se ele estivesse matriculado numa escola regular, com plena inclusão social. A aventura ao lado de Charlie, que durou uma semana, já é suficiente para que, ao menos,  essa pergunta seja suscitada, considerando os muitos aprendizados.

A internação em Walbrook está também relacionada a um evento misterioso do passado, rememorado pelos irmãos numa cena emocionante. O que se pode deduzir é que Raymond expôs Charlie à água quente, quando este último era ainda um bebê. A morte da mãe e o perigo que Raymond passou a representar para o irmão foram decisivos para o isolamento.

Essa história é, de alguma maneira, semelhante a muitas outras histórias envolvendo pessoas com deficiência. Creio que não caiba questionar a decisão do pai de Raymond, até porque a própria concepção de autismo e os recursos disponíveis à época eram diferentes de hoje. Cabe ratificar a importância da inclusão, não apenas possível como também necessária, e de políticas públicas efetivas, sem as quais pouco se pode fazer.

Os dois lados da janela

Como já dissemos antes, a possibilidade de inclusão de Raymond é aberta durante a viagem com Charlie – ponto central e mais longo da trama. Se inicialmente Charlie tira o irmão de Walbrook sem um plano definido e com um interesse financeiro claro, à medida que se dá a interação entre eles, novas perspectivas vêm à tona.

Ao falar sobre os mitos que cercam a deficiência, Lygia Amaral (1998, p. 16) menciona a alegoria do castelo e dos crocodilos para nos dizer que existe

[…] uma ponte movediça que possibilita o trânsito entre a cidade e o castelo, permitindo, ao mesmo tempo, escapar dos ferozes animais e conhecê-los a uma distância segura. Essa ponte movediça é toda oportunidade de encontro (“ao vivo e em cores” ou por intermédio de um livro!) de pessoas que vivem a questão ou interessam-se pelo tema; é todo progresso no mundo teórico-científico; é toda vitória no contexto da prática; é todo momento de impasse que leva a reflexões.

A viagem foi uma oportunidade de encontro. O mundo único de Raymond e o mundo considerado real são dois lados de uma mesma janela, que precisa estar aberta.

Durante a viagem, Raymond, pela primeira vez, parece conhecer o mundo, o que lhe é um renascimento, apesar de todas as dificuldades. Ele tem a rotina alterada, come e dorme em lugares diferentes a cada dia e vivencia um sem-número de novas experiências, como apostar em Las Vegas, dançar, marcar um encontro amoroso e beijar uma garota

Charlie, por outro lado, desenvolve afeto por Raymond e enfrenta questões traumáticas da infância e de sua relação com a família. A dificuldade de expressar suas próprias emoções vai sendo, aos poucos, superada pelo laço criado com o irmão; seu lado inconsequente vai dando lugar a um mais maduro. Essa reviravolta é iniciada com a descoberta de que Rain Man – quem ele sempre pensou se tratar de um amigo imaginário da infância – era, na verdade, Raymond. 

Fazendo um paralelo com o método utilizado pelo médico-pedagogo Jean Itard para educar o menino Victor – encontrado nos bosques de Aveyron aos 12 anos, em estado selvagem –, temos um caso semelhante ao do filme, mas com resultados distintos, embora Charlie nunca tenha assumido a posição de mestre de Raymond.

Segundo Banks-Leite e Souza (2000, p. 81), “quando Itard efetua uma avaliação dos aspectos em que seu trabalho fracassou, ele deixa transparecer mais o desejo frustrado do mestre do que uma preocupação com as necessidades reais do seu aprendiz”.

Com erros e acertos, perdendo a paciência às vezes, Charlie esteve atento às necessidades reais de Raymond, procurando, inclusive, meios de criar uma atmosfera semelhante à de Walbrook. Mais importante do que isso: Charlie se permitiu ser surpreendido por Raymond. Quando lhe mostra o baralho com o intuito de levá-lo a Vegas e, depois, permite que Raymond dirija o carro, temos cenas representativas de confiança.

No final do filme, emerge a questão crucial no contexto de uma audiência: deveria Raymond voltar para Walbrook ou viver com o irmão? Perguntam a Raymond o que ele prefere. Sua resposta é dúbia: ele diz sim tanto para Charlie quanto para Walbrook.

Essa questão apresentada ao espectador, independentemente da posição que se tome, é muitíssimo importante. Se para Raymond não houvesse possibilidade de inclusão, ficar com Charlie não surgiria como uma das alternativas. Ainda que se discuta se Charlie é suficientemente capaz de cuidar do irmão e mesmo que haja a necessidade de acompanhamento regular da condição clínica de Raymond, nosso autista savant não será mais o mesmo e já não há como fechar essa janela. E, apesar da despedida entre os irmãos na última cena, podemos dizer que esse final é feliz.  

Referências

AMARAL, L. A. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação.  In: AQUINO, J. G. (Org.). Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998. p.11-30.

BANKS-LEITE, L.; SOUZA, RM. O des(encontro) entre Itard e Victor: os fundamentos de uma Educação Especial. In: BANKS-LEITE, L; GALVÃO, I. (Orgs.). A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard. São Paulo: Cortez, 2000. p.57-81.

LOPES, RJ. A inteligência sem fim dos autistas savants. Superinteressante, São Paulo, ago. 2008. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/os-maiores-cerebros-do-mundo. Acesso em: 18 set. 2019.

NEVES, A. J.; ANTONELLI, C.S.; SILVA, M. G. C.; CAPELLINI, V. L. M. F. Escolarização formal e dimensões curriculares para alunos com autismo: o estado da arte da produção acadêmica brasileira. Educação em Revista, Belo Horizonte, v.30, n.02, p.43-70, Abril-Junho 2014.

RIOS, C.; ORTEGA, F.; ZORZANELLI, R.; NASCIMENTO, LF. Da invisibilidade à epidemia: a construção narrativa do autismo na mídia impressa brasileira. Interface, Botucatu, 2015; 19(53):325-35.


[1] A Síndrome de Savant difere do próprio autismo e da Síndrome de Asperger. Entretanto, estima-se que um em cada 10 autistas seja savant. Para maiores informações, consultar LOPES (2008).

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