Roberto Mendes: Tradição e Tradução

“A gente só se encontra no outro. Vivemos numa encruzilhada porque vemos a imagem refletida, não a imagem real. A palavra comum aprisiona; a poesia liberta.”

Esses pensamentos expressam parte da visão de mundo de Roberto Mendes – um dos maiores expoentes da música do Recôncavo Baiano.

“é chula de Santo Amaro, palma de bater na mão”

Entre uma e outra reflexão profunda, chamam nossa atenção sua desconcertante simplicidade, seu jeito e riso santo-amarenses. Só pode ser assim quem verdadeiramente vive Santo Amaro. Isso mesmo: vive como transitivo direto.

Cantor e compositor extraordinário, Roberto Mendes tem canções gravadas por diversos intérpretes Brasil afora, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa e Tânia Alves. Mas a ele foi delegada uma missão ainda maior: sua música não é apenas música; é cultura, comportamento, tradução do modo de viver de um povo.

“é batida de baticum, é um som que só soa lá”

A chula nasce da junção do batuque dos escravos africanos, cruelmente trazidos ao Brasil durante a colonização, com a viola portuguesa. Trata-se de uma manifestação cultural heterogênea – um ritual riquíssimo, que é, ao mesmo tempo, música, fé, dança, poesia e festa.

Roberto Mendes tem fundamental importância no resgate e na preservação dessa riqueza cultural, porque ele é, há décadas, um estudioso incurável da chula – e também o seu maior difusor.

Embalada pelo violão em percussão ferida, a chula é exclusividade do Recôncavo e, em especial, de Santo Amaro. Assim como o mapé e o bembé do mercado. Encontrar Roberto no Amparo, na Praça da Purificação ou mesmo no Arraial da Pedra deve ser motivo de orgulho para todo santo-amarense.

a soma de dois é um

Esse trecho da canção Vida Vã parece definir precisamente a importância da amizade na música de Roberto Mendes. É com seus diversos parceiros de composição que a arte de Roberto se torna plena.

Jorge Portugal, também santo-amarense, é letrista de uma série de canções maravilhosas, como Filosofia Pura, Baianos Luz, Cidade e Rio, Vila do Adeus, A Beira e o Mar e por aí vai. Quase sempre vestidas com o manto da dor e da saudade, as letras de Jorge se destacam pela beleza sonora e pelo resgate de nossa humanidade, como nos versos de Vila do Adeus, gravada por Maria Bethânia:

“a dor se espraia
feito pé de samambaia
e antes que a noite caia
apaga a lua
a saudade então flutua
como um bólido luzente
e dentro dela a gente vai”

“que noite mais funda, calunga”

Capinam é outro parceiro constante de Roberto. Os dois compuseram juntos, só para citar algumas, Flor da Memória, Tempos Quase Modernos e Dor do Mundo. Em especial, temos de falar de Massemba – canção preciosa e inesquecível. Em passagens belíssimas, a letra nos apresenta nosso doloroso passado histórico:

“Que noite mais funda, calunga
no porão de um navio negreiro
que viagem mais longa, candonga
ouvindo o batuque das ondas
compasso de um coração de pássaro
no fundo do cativeiro…”

Roberto costuma dizer que “é mais importante ser reconhecido pelo seu vizinho do que ser famoso no mundo inteiro”. A beleza dessa afirmação está na noção de comunidade. É difícil que alguém esteja feliz se o seu vizinho está triste. Nos versos finais de Massemba, dialogando com essas ideias, é aberta uma porta para o futuro:

“Vou aprender a ler
pra ensinar meus camaradas”

“asas que não possuo, por muito peso que tenho”

A parceria de Ana Basbaum com Roberto Mendes gerou também resultados incríveis. As letras de Ana são extremamente líricas, muitas vezes se assemelhando à poesia escrita, e tocam o âmago de nosso ser. Melancolia e luz, clausura e libertação – contradições que nos arrebatam desde a primeira vez que ouvimos as canções.

Em Aniversário, memória e esquecimento entram em conflito:

“o passado já não há,
não existem provas do que fui
a partir de agora, sou o que quiserem lembrar
eu não lembro de nada
quem me negará?”

Em Olhos Cansados, o conflito é entre o corpo e o espírito:

“Asas que me querem levar pros cimos inalcançáveis do mundo
algures do desalento nas noites imerecidas
asas que não possuo, dos loucos e dos libertos
dos anjos inconformados de mãos postas em súplica…”

Por todo esse legado, só nos resta mesmo agradecer a Roberto. Ou, como ele humildemente nos corrigiria, é preciso agradecer a Santo Amaro.

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