Sonetos da Inconfidência – Ildásio Tavares

II – O Manuel

Meu coração balança numa corda —
nunca mais vai parar de balançar.
É noite. A vila já se foi deitar,
enquanto eu pago o preço de um calhorda.
Eu morro e Vila Rica não acorda!
Acordo e Vila Rica foi deitar!
Antes morrer do que me envergonhar;
melhor matar o sonho em uma corda.
É tarde, Nise, é tarde. A liberdade
é só um nome escrito na bandeira,
uma distante e tênue claridade.
É tarde. Adeus. Vou só. A derradeira
lamparina apagou-se na cidade:
somente a morte é minha companheira.

IV – O Silvério

Meu coração é de metal sonante
e se eu tivesse trinta corações
eu venderia todos. De ilusões
jamais viveu quem é comerciante.
Patrão sempre há de haver. A cada instante
o mundo está trocando seus patrões.
Mas o ouro é quem seduz as multidões
e das nações é o doce governante.
Quero viver a vida. De que adianta
mexer a terra e revolver a messe
se a merda a mesma merda ficaria?
Só o dinheiro a todo o mundo encanta.
Se trinta corações hoje eu tivesse,
eu juro, todos trinta eu venderia.

VII – Os Alvarenga

Meu coração ao cais ele não chega —
não se muda este mundo com poesia.
O beijo inebriante da Utopia
afirma enquanto a realidade nega;
enxerga quando a escuridão nos cega
e em plena noite quer nascer o dia.
A prática desmente a teoria —
alvarenga nas minas não navega.
Bárbara amiga, tu que me salvaste
ao menos do acicate do futuro,
diz-me que dia é hoje; onde almoçaste?
De que serviu nossa iluminação?
Mais vale a paz de espírito no escuro:
poesia nunca fez revolução.

Sonetos extraídos da obra IX sonetos da Inconfidência. São Paulo: Lemos Editorial/Ed. Giordano, 1999.

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